Bossa mais antiga: lições do Brasil para melhores políticas de isolamento social

Imagem da capa: Shutterstock / Marcos Homem

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Este artigo faz parte de uma série na qual especialistas da OCDE e líderes de pensamento – de todo o mundo e de todas as partes da sociedade – abordam a crise da COVID-19, discutindo e desenvolvendo soluções agora e para o futuro. O objectivo é fomentar o intercâmbio frutuoso de conhecimentos e perspectivas entre áreas para nos ajudar a enfrentar este desafio crítico. As opiniões expressas não refletem necessariamente a opinião da OCDE.

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Dada a dimensão mundial da nova crise do coronavírus (COVID-19) e seus diversos impactos sociais e econômicos, o desafio é pensar globalmente para atuar localmente. O Brasil é um país de dimensões continentais e seus níveis de desigualdade fazem dele uma espécie de pequeno mundo em si mesmo. As lições aprendidas aqui serão úteis para países ricos e pobres.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, pessoas idosas são mais propensas a desenvolver condições clínicas graves relacionadas à COVID-19. Em particular, a taxa de letalidade para pessoas com 80 anos ou mais é 13 vezes maior do que para pessoas entre 50 e 55 anos.  Portanto, entender onde os idosos estão localizados é de fundamental importância. O objetivo principal aqui é proporcionar informações detalhadas sobre os idosos no Brasil como o grupo mais vulnerável aos efeitos do vírus.

Quem são os idosos no Brasil?

10,5% da população brasileira tem 65 anos ou mais. Os idosos representam 19,3% dos chefes de família, uma taxa acima da média nacional (10,53%) e que fortalece a hipótese dos idosos como principal provedor do agregado familiar. Por outro lado, as casas que incluem idosos têm 25,6% menos pessoas do que a média nacional.

No que diz a respeito a distribuição de renda, os idosos representam 17,4% dos 5% mais ricos do Brasil e 1,67% dos 5% mais pobres. Há 10% menos desigualdade de renda (Gini) entre os idosos. Este grupo também está menos exposto à pobreza: 2,4% contra 11,5% para a média nacional ou 20,3% para crianças. Os idosos que estavam acima da linha da pobreza tiveram probabilidade de 1,58% de ficarem pobres no ano seguinte, contra 5,06% da média brasileira.  Esses números são explicados pela extensa rede de proteção social oferecida aos idosos no Brasil, também tardia nas reformas da previdência social.

No que se refere à educação, os idosos representam quase um terço de todos os analfabetos no Brasil. Além disto, eles têm 3,3 anos a menos de escolaridade do que a média brasileira. A taxa de pessoas idosas sem acesso à internet é o dobro da média nacional.

Para resumir, os idosos no Brasil estão localizados em agregados familiares menores, com renda relativamente alta, estável e homogênea, além de serem mais visíveis aos olhos do estado.  Esses fatores contribuem para a implementação de ações de isolamento social para amenizar os efeitos da pandemia da COVID-19. Os maiores obstáculos são os baixos níveis da conexão educacional e digital. Mensagens simples por meios analógicos aparentam promover melhores ações focadas à proteção de pessoas idosas no Brasil.

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Onde moram os idosos?

O estado com maior índice de idosos entre sua população é o Rio de Janeiro (13,06%), uma espécie de “Flórida brasileira”. O Rio não é habitado por jovens bronzeados, mas por idosos igualmente bronzeados; Copacabana lidera o ranking dos bairros do Rio com a maior parcela de pessoas idosas - e ficaria em segundo lugar se comparado globalmente. O Rio também abriga um imenso setor informal, quase atingindo o nível de cidades da região Nordeste pobre do país.  Desse modo, o Rio de Janeiro fica preso entre uma rocha e um lugar difícil: a sociedade é altamente afetada pelas políticas de isolamento social necessárias para proteger o grande número de pessoas idosas em nossa população.

©Shutterstock; Photographer: marchello74

O país que lidera o processo de envelhecimento no mundo é o Japão, com 28,4% da população com 65 anos ou mais. Enquanto isso, o continente africano e o Oriente Médio apresentam as taxas mais baixas. Os territórios mais ricos tendem a apresentar uma parcela maior de idosos, devido à maior expectativa de vida e menor taxa de fertilidade. O Brasil é colocado no meio da distribuição. No entanto, essa posição muda de acordo com o critério de renda que escolhemos. Em um grupo de 98 países, o Brasil ocupa o 80º lugar entre os 20% mais pobres e o 31º lugar entre os 20% mais ricos, o que significa que os idosos estão relativamente bem no Brasil.

O que vem depois?

Analisamos indivíduos que moram com uma pessoa idosa, assim podemos elaborar de uma melhor forma as políticas de isolamento social.  As áreas mais ricas têm mais idosos, mas essas pessoas idosas não vivem com pessoas de outras faixas etárias.  Um exemplo é a Finlândia, onde 3% dos idosos vivem com adolescentes ou crianças, em contraste com o Afeganistão, onde 96% de todos os idosos vivem com crianças ou adolescentes. O Brasil também está no meio do ranking, e esse fato precisa ser levado em consideração ao elaborar políticas de isolamento social. Por fim, também estamos focados em pessoas com prevalência de morbidades, incluindo estimativas atualizadas com base em projeções demográficas, mantendo constante o fator idade.

A atual pandemia se espalhou globalmente através de viagens internacionais, inicialmente entre pessoas ricas em lugares ricos.  Nova York, Milão e São Paulo apresentam os maiores níveis de contágio em seus respectivos países. Nesse sentido, os modestos 6,4 milhões de turistas internacionais que vêm anualmente ao Brasil (contra 50 milhões na Itália, 70 milhões na Espanha, 78 milhões nos EUA e 85 milhões na França) foram uma vantagem inicial.  Os locais turísticos são populares entre pessoas idosas, e isso deveria ter soado como um alerta precoce.

Convido você a acessar o site da pesquisa e usar os nossos conjuntos de dados interativos para responder às suas perguntas de interesse.

Para mais informações, veja Marcelo Neri delinear a sua pesquisa no vídeo abaixo.


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Marcelo Neri

Director, FGV Social

Director of FGV Social and founder of the Center for Social Policies at the Getulio Vargas Foundation. He teaches at FGV EPGE. PhD in Economics, Princeton University. He writes regularly in scientific journals and in general magazines. He has been twice cited as one of the 100 most influential Brazilians by Época Magazine. He has edited ten books. Previously he was the Secretary-General of the Council of Economic and Social Development (CDES), President of the Institute for Applied Economic Research (Ipea) and Minister of Strategic Affairs. He has evaluated policies in more than a dozen countries and also designed and implemented policies at three government levels in Brazil.

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